Demitidos fazem ‘bico’ para ganhar dinheiro

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  • outubro 19, 2015
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No setor da construção havia sete anos, Claudia Alves, de 43 anos, era carpinteira e trabalhava com carteira assinada. Há dois meses, porém, ela foi demitida de uma obra na Barra da Tijuca, no Rio – a justificativa dos chefes foi a crise do setor. Agora, vende batatas fritas à noite no bairro do Cordovil, onde mora com o marido, a filha e o neto, na zona norte da cidade.

— Tive de cortar o gasto no supermercado. Antes, comprava sorvete, outros supérfluos. A vida estava mais folgada, mas agora… Não estamos passando fome, mas diminuiu o poder de compra — conta ela, para quem a insegurança da informalidade é a maior perda.

— Quando tem o emprego fixo, com carteira, é tudo certinho, tem hora extra. Além disso, ganha mais.”

A situação de Claudia é um exemplo do prejuízo arcado por quase 1 milhão de brasileiros que foram demitidos do emprego formal nos últimos 12 meses. Muitos vêm recorrendo a bicos para pagar as contas. Sem a recuperação da economia, o Brasil fica cada vez mais longe de estancar a perda na qualidade do mercado de trabalho conquistada na última década.

No trimestre até julho deste ano, o País tinha 35,739 milhões de trabalhadores com carteira assinada, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, do IBGE. É o menor número desde o trimestre até setembro de 2013, quando 35,636 milhões ocupavam vagas formais.

A cada ano sem crescer, o Brasil retroage dois anos em termos de postos formais, estima o economista Rodrigo Leandro de Moura, pesquisador da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

— O emprego formal começou a cair em julho de 2014. Em um ano, regredimos dois anos, e a tendência é que continue desacelerando. No fim de 2016, não descarto a possibilidade de estarmos no pior nível da Pnad Contínua (iniciada em 2012).

Para o trabalhador, o prejuízo chega em forma de precarização, já que muitos dispensados acabam fazendo bicos. Hoje, o Brasil tem 22,111 milhões de trabalhadores por conta própria, o maior número da pesquisa do IBGE. Essa forma de inserção é marcada, na maioria das vezes, pela informalidade.

Para o governo, o problema é a redução na arrecadação previdenciária em tempos de déficit crescente na área, além da alta demanda por assistência, como seguro-desemprego.

— Isso eleva o déficit fiscal — diz Moura.

Processo

O principal risco é o círculo vicioso gerado pela dispensa dos trabalhadores registrados. Se menos gente tem remuneração fixa, o consumo cai ainda mais, incentivando novas demissões e realimentando o processo. Outro passo atrás é dado quando a rede de proteção, que inclui o seguro-desemprego, acaba sem que o trabalhador consiga nova colocação.

Wellinton Batista, de 29 anos, atuava havia dois anos como contínuo em um consórcio que presta serviços à Petrobrás. Com a crise na estatal, foi demitido em março, e o seguro-desemprego acabou em agosto.

— Agora está complicado. Faço bico como ajudante de obra de vez em quando, mas é pouco serviço — conta ele, que recebe ajuda da família para seguir a vida com a mulher e os dois filhos.

Morador de Bangu, na zona oeste do Rio, Batista já fez mais de dez entrevistas de emprego. Em algumas situações, disputou com outros 20 candidatos.

— Não fui chamado para nada, estou só esperando.

A mulher tampouco teve sucesso em suas tentativas de encontrar emprego como recepcionista.

— A redução do trabalho formal não vai se reverter facilmente no limite do uso da seguridade social (quando o benefício acaba). Com isso, as pessoas tentam se aventurar no mundo informal, que acolhe muito rápido e expulsa mais rápido ainda — analisa Lúcia Garcia, coordenadora do Sistema de Pesquisa de Emprego e Desemprego do Dieese.

Um problema maior seria atingir o “desemprego absoluto”, quando as pessoas nem sequer encontram bicos.

— Sem emprego formal, sem seguridade e sem renda do emprego informal é ladeira abaixo — diz Lúcia, que não aposta nesse futuro.

— Mas não chegar a esse ponto depende de política econômica. —completa

Dada a expectativa de retração na economia em 2016, Moura, da FGV, espera corte de 1,5 milhão de postos formais neste ano e a mesma quantidade no ano que vem.

— Em 2017, é provável que não haja recuperação muito robusta da economia. Então, o mercado de trabalho deve continuar se deteriorando. Com certeza vamos regredir muito em termos de formalização.

 

Matéria: R7 – Economia

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